1963–1987
Se é domingo, tem Bafafá!
Um dos maiores fenômenos de auditório da história da Rede Contato, O Show do Bafafá nasceu no rádio e chegou à televisão levando consigo tudo aquilo que faria sua marca registrada: música, calouros, brincadeiras, artistas, confusão, humor e, principalmente, a personalidade absolutamente imprevisível de seu apresentador.
Durante quase 25 anos, o programa foi um dos grandes encontros da televisão brasileira aos fins de semana.
A HISTÓRIA DO SHOW DO BAFAFÁ
O Show do Bafafá nasceu no rádio, em 1963, conquistando rapidamente o público com seu humor irreverente, suas brincadeiras e a presença marcante de seu apresentador. O sucesso foi tamanho que, poucos anos depois, o programa ganhou uma versão televisiva e passou a ocupar um lugar especial na programação da Rede Contato.
Ao longo de quase 25 anos no ar, O Show do Bafafá tornou-se um dos grandes encontros de entretenimento da emissora. Música, calouros, artistas convidados, concursos, humor e muita confusão fizeram parte de sua fórmula, que atravessou diferentes fases da televisão brasileira sem perder sua identidade.
AS PRIMEIRAS FASES DO PROGRAMA
Nos primeiros anos, o programa ainda carregava a espontaneidade dos grandes programas de auditório do rádio. A televisão, porém, ampliou suas possibilidades: o palco ganhou cenários maiores, a plateia passou a fazer parte do espetáculo e os quadros foram se multiplicando.
O Bafafá rapidamente encontrou sua identidade. O apresentador conduzia cada edição com enorme liberdade, transformando situações inesperadas em momentos de humor e fazendo do improviso uma das principais características do programa.
A ERA DE OURO DO PROGRAMA
Durante sua fase de maior sucesso, o Show do Bafafá consolidou-se como um dos programas mais populares da Rede Contato. O apresentador ganhou liberdade para transformar cada edição em um verdadeiro espetáculo, misturando música, humor, brincadeiras e situações inesperadas.
A plateia tornou-se parte fundamental do programa. Artistas convidados, calouros e personagens que apareciam de surpresa ajudavam a criar uma atmosfera descontraída, na qual praticamente tudo podia acontecer.
Foi também nessa época que surgiram alguns dos quadros mais lembrados pelo público. O programa passou a ocupar um espaço especial nas noites de fim de semana e tornou-se uma das atrações mais características da televisão da Rede Contato.
A CONSOLIDAÇÃO NA TELEVISÃO
A consolidação do Show do Bafafá aconteceu quando o programa passou a ocupar um espaço cada vez mais importante na programação da Rede Contato. O que havia começado de maneira simples ganhou grandes cenários, plateias animadas e uma produção cada vez mais cuidadosa, sem abandonar o espírito espontâneo que conquistara o público.
O Bafafá tornou-se também uma vitrine para artistas de diferentes áreas. Cantores, músicos, atores e personalidades da televisão encontravam no programa um ambiente descontraído, onde entrevistas podiam se transformar em brincadeiras e apresentações podiam ganhar rumos completamente inesperados.
O apresentador era o grande responsável por essa atmosfera. Com seu jeito irreverente e sua capacidade de improvisação, ele conduzia cada edição como se estivesse conversando diretamente com o público, criando uma relação de proximidade que se tornou uma das marcas mais fortes do programa.
OS QUADROS QUE VIRARAM MARCA REGISTRADA
Uma das grandes forças do Show do Bafafá estava em seus quadros. Alguns eram planejados com antecedência, enquanto outros nasciam praticamente diante das câmeras, aproveitando a espontaneidade do apresentador e a participação da plateia.
Brincadeiras com os convidados, desafios, concursos e situações inusitadas ajudavam a transformar cada edição em um acontecimento diferente. O público nunca sabia exatamente o que poderia acontecer, e essa imprevisibilidade fazia parte do encanto do programa.
Com o passar dos anos, alguns desses momentos tornaram-se tão associados ao Bafafá que passaram a fazer parte da memória afetiva de quem acompanhava o programa. Eram situações simples, divertidas e, muitas vezes, completamente inesperadas — exatamente como o espírito do programa.
OS GRANDES ARTISTAS E CONVIDADOS
Ao longo de sua trajetória, o Show do Bafafá recebeu nomes importantes da música, da televisão e do entretenimento brasileiro. Cada convidado trazia uma nova possibilidade para o programa, que aproveitava sua personalidade para criar momentos de descontração e diversão.
Cantores apresentavam seus sucessos, atores participavam das brincadeiras e personalidades conhecidas do público entravam no clima irreverente do Bafafá. Muitas vezes, uma entrevista aparentemente comum acabava se transformando em uma situação completamente diferente graças às intervenções inesperadas do apresentador.
Essa mistura de convidados, música, humor e espontaneidade ajudou a transformar o programa em um dos espaços mais queridos da televisão da Rede Contato. Para muitos artistas, participar do Bafafá significava também viver uma experiência diferente, longe da formalidade dos tradicionais programas de entrevistas.
O HOMEM POR TRÁS DO BAFAFÁ
Augusto Valença
Conhecido pelo público simplesmente como Seu Guto, Augusto Valença nasceu em Olinda, Pernambuco, em 1910.
Filho de uma família de classe média, passou a infância e a juventude entre as ladeiras de Olinda, onde desenvolveu desde cedo duas grandes paixões: a comunicação e a música.
Era conhecido pelos amigos como um rapaz falante, espirituoso e incapaz de passar despercebido.
Na juventude, conheceu aquela que seria sua esposa, Helena Maria Valença, durante uma festa popular em Olinda. O encontro daria início a um casamento que duraria mais de cinco décadas.
O casal teve quatro filhos: Álvaro, Teresa, Paulo e Regina.
Apesar da enorme popularidade conquistada posteriormente, Augusto fazia questão de preservar a família. Helena tornou-se, segundo ele próprio dizia, “a única pessoa que conseguia mandar no apresentador depois que as câmeras eram desligadas”.
DO RÁDIO PARA A TELEVISÃO
A história de Augusto Valença começou muito antes da televisão.
Ainda jovem, ele ingressou na Rádio Contato, emissora que fazia parte do universo da Rede Contato e que havia iniciado suas transmissões ainda na década de 1930.
Ali, Augusto passou por praticamente todas as funções: locutor, repórter, apresentador, comentarista e produtor.
Formado em jornalismo no Recife, desenvolveu na rádio um estilo próprio de comunicação, misturando informação, humor e improviso.
Seu programa radiofônico, inicialmente dedicado à música popular e aos artistas que passavam pelos estúdios da emissora, foi crescendo até transformar-se em um verdadeiro programa de variedades.
E foi justamente dali que nasceu a ideia que mudaria sua carreira.
1963 — NASCE O BAFAFÁ
Quando a Rede Contato decidiu ampliar sua programação de entretenimento, Augusto Valença recebeu o convite para levar seu programa radiofônico para a televisão.
Aos 53 anos, ele chegou à televisão com uma característica que imediatamente chamou a atenção:
não parecia um apresentador de televisão.
E era exatamente isso que o público adorava.
Augusto aparecia diante das câmeras usando fantasias extravagantes, roupas coloridas, chapéus enormes, perucas, personagens históricos, figuras folclóricas e até fantasias que provocavam críticas dos setores mais conservadores da sociedade.
Quanto mais reclamavam, mais ele se divertia.
O programa recebeu o nome de O Show do Bafafá.
E o sucesso foi imediato.
UM DOMINGO COM SEU GUTO
De 1963 a 1979, O Show do Bafafá foi exibido aos domingos, das 14h às 16h.
Durante duas horas, o palco da Rede Contato recebia de tudo:
Cantores e bandas nacionais
Artistas de teatro
Humoristas
Dançarinos
Calouros
Concursos e brincadeiras
Convidados famosos
O programa também ficou conhecido por seu tradicional júri de celebridades.
A cada semana, atores, cantores, jornalistas, compositores e personalidades da televisão eram convidados para julgar os candidatos.
E nem sempre o julgamento terminava em paz.
Seu Guto adorava provocar os jurados, contestar suas notas e criar situações improvisadas.
O CAÇADOR DE TALENTOS
Por trás da irreverência havia um profissional extremamente atento.
Augusto Valença possuía uma verdadeira obsessão por descobrir artistas desconhecidos.
Cantores que chegavam tímidos aos estúdios da Rede Contato muitas vezes saíam dali contratados para apresentações, gravadoras ou temporadas de shows.
Bandas iniciantes encontravam no Bafafá uma das primeiras grandes vitrines nacionais.
Por isso, ao longo dos anos, Seu Guto ganhou enorme prestígio entre músicos, atores, compositores e produtores.
Muitos artistas consagrados fizeram questão de voltar ao programa mesmo depois de alcançarem a fama.
Para eles, participar do Bafafá era quase uma espécie de batismo popular.
SEU GUTO x CHACRINHA
Na televisão, a imprensa frequentemente apresentava Augusto Valença como o grande concorrente de Chacrinha.
Os dois programas disputavam público, convidados e atenção da imprensa.
A televisão adorava alimentar a rivalidade.
Mas havia um detalhe que o público nem sempre conhecia:
Augusto e Chacrinha eram amigos.
Fora das câmeras, conversavam, trocavam ideias e até brincavam sobre a suposta disputa.
Seu Guto costumava dizer:
“Na televisão somos concorrentes. Na vida somos companheiros de bagunça.”
E Chacrinha, segundo antigos relatos dentro da Rede Contato, costumava responder:
“O problema do Guto é que ele acha que eu sou concorrente dele.”
A rivalidade fazia parte do espetáculo.
A amizade era verdadeira.
1980 — O BAFAFÁ MUDA DE DIA
Em 1980, a Rede Contato decidiu promover uma grande reformulação de sua programação.
O Show do Bafafá deixou os domingos e passou para os sábados, das 16h às 18h.
A mudança aconteceu justamente na abertura da nova programação anual da emissora.
O público inicialmente estranhou.
Seu Guto, porém, brincou:
“Se o público me encontrar no sábado, no domingo ele pode descansar!”
O programa rapidamente se adaptou ao novo horário e continuou entre as atrações mais populares da Rede Contato.
O BAFAFÁ E OS ANOS DE CENSURA
A história de O Show do Bafafá também atravessou um dos períodos mais delicados da história brasileira.
Quando o programa estava no auge de sua popularidade, o país vivia sob a ditadura militar, e a televisão estava submetida à censura.
Seu Guto nunca se apresentou como um homem de enfrentamentos políticos. Sua arma era outra: o humor.
Ao longo dos anos, músicas, textos, piadas e quadros do programa foram algumas vezes submetidos à censura.
Trechos considerados inadequados precisavam ser modificados ou simplesmente não podiam ir ao ar.
Para um programa marcado pelo improviso e pela irreverência, aquilo representava um desafio permanente.
Foi nesse período que Augusto Valença desenvolveu uma de suas maiores especialidades: dizer sem dizer.
Quando uma determinada palavra era proibida, encontrava outra. Quando uma piada era cortada, criava uma nova. Quando não podia fazer uma crítica diretamente, transformava-a em brincadeira, metáfora ou comentário aparentemente inocente.
O público, entretanto, aprendia a compreender suas entrelinhas.
Seu Guto também procurava preservar o espaço de seus convidados. Cantores, compositores, atores e outros artistas que enfrentavam dificuldades para se apresentar na televisão encontravam no Bafafá um apresentador disposto a procurar alternativas para mantê-los próximos do público.
Em determinados momentos, uma simples mudança na maneira de apresentar uma música ou uma brincadeira era suficiente para que uma mensagem chegasse aos espectadores sem ser dita de forma explícita.
Por isso, nos anos mais difíceis da censura, o palco do Bafafá tornou-se também um espaço de criatividade e resistência cultural.
Seu Guto costumava brincar que a censura tinha uma vantagem:
“Ela me obriga a pensar mais rápido.”
A frase resumia bem seu método.
Em vez de abandonar a irreverência que havia construído sua carreira, ele aprendeu a trabalhar com os limites impostos à televisão daquele período.
Com o processo de abertura política e, posteriormente, o fim da censura, o programa ganhou gradualmente mais liberdade. Seu Guto passou a fazer comentários cada vez mais diretos sobre os acontecimentos do país, sempre mantendo o tom popular e bem-humorado que havia marcado sua trajetória.
Quando a censura finalmente deixou de existir, ele não transformou o Bafafá em um programa político.
Continuou sendo um programa de música, humor, calouros e artistas.
Mas aqueles que acompanharam sua história sabiam que, durante anos, o riso também havia sido uma maneira de continuar falando.
O LEGADO
Durante quase 25 anos, Augusto Valença ajudou a construir uma das marcas mais queridas da televisão da Rede Contato.
Seu estilo influenciou apresentadores, humoristas e produtores que vieram depois.
Mais importante ainda: ele abriu portas para artistas que talvez jamais tivessem encontrado espaço na televisão nacional.
Seu palco tornou-se conhecido como um lugar onde um artista desconhecido podia chegar sem fama e sair conhecido pelo país inteiro.
1987 — O ÚLTIMO BAFAFÁ
Em 17 de março de 1987, aos 76 anos, Augusto Valença faleceu.
A morte do apresentador encerrou definitivamente a história do programa.
A Rede Contato decidiu não substituir Seu Guto.
O Show do Bafafá terminou junto com seu criador.
Na última edição, o palco foi ocupado por artistas que haviam passado pelo programa ao longo de sua história.
No encerramento, a tradicional música de abertura foi executada uma última vez.
As câmeras permaneceram alguns segundos sobre a cadeira vazia do apresentador.
E então as luzes se apagaram.
O Bafafá havia terminado.
Mas Seu Guto já tinha deixado sua marca.
O Show do Bafafá
1963–1987
Apresentador: Augusto “Seu Guto” Valença
Emissora: Rede Contato
Origem: Rádio Contato
Formato: programa de auditório, calouros, música e variedades
Período: 1963 a 1987
Domingos: 14h–16h, até 1979
Sábados: 16h–18h, de 1980 a 1987
“O Bafafá acabava quando Seu Guto dizia que acabava.”
