CURIOSIDADES – De Bem com a Vida

Histórias, segredos e acontecimentos por trás das câmeras de De Bem com a Vida

Durante os meses em que De Bem com a Vida esteve em produção, muita coisa aconteceu longe das câmeras. Houve improvisos que acabaram entrando no ar, crianças que transformavam os intervalos em uma verdadeira extensão do Lar Nossa Senhora da Conceição, dificuldades nas gravações em locação, objetos que desapareciam misteriosamente do cenário e até personagens que ganharam mais espaço do que se imaginava inicialmente. Décadas depois, algumas dessas histórias continuam sendo lembradas com carinho por quem participou daquela aventura.

O DIA EM QUE DONA DODÔ QUASE PERDEU OS DOCES… PARA A EQUIPE
A paixão de Dona Dodô pelas guloseimas da Vittorelli era uma das características mais divertidas da personagem. O que ninguém esperava era que isso acabaria criando um problema de bastidor. Nas primeiras semanas de gravação, a produção costumava deixar doces e salgados reais à disposição para determinadas cenas. A ideia era garantir maior naturalidade: nada de personagens fingindo comer diante de câmeras. O problema é que, entre uma tomada e outra, a mesa ficava acessível. E não demorou para que os produtos começassem a desaparecer. A princípio, todos brincavam que os responsáveis eram os atores mirins. Até descobrirem que técnicos, contrarregras e até membros da produção também atacavam a mesa.

Em determinado dia, Eloá Braga chegou ao cenário, olhou para a bandeja e perguntou:
“E os doces que estavam aqui?”
Um técnico respondeu:
— “Acabaram.”
A atriz não perdeu tempo:
“Então arranjem outros. Dona Dodô não pode sofrer desse jeito.”

Depois disso, a equipe passou a reservar uma quantidade extra exclusivamente para as gravações. A medida ficou conhecida, informalmente, como: “A cota de segurança de Dona Dodô.”

JOSÉ WILTON E TATU VIRARAM OS PRINCIPAIS SUSPEITOS
Depois que a equipe começou a perceber o desaparecimento frequente dos doces, uma investigação completamente informal foi criada no set. Todos sabiam que os personagens de José Wilton e Tatu seriam perfeitamente capazes de cometer o crime. Mas e os atores? Lucas Barbosa e Aluísio Almeida foram imediatamente colocados na lista de suspeitos. Os dois negavam tudo. Um dia, porém, a contrarregra encontrou um papel de doce atrás de uma poltrona usada pelos garotos.
— “E isso?”
Eles responderam:
“Prova circunstancial.”
Ninguém conseguiu provar nada.
O caso foi encerrado.
Os doces continuaram desaparecendo.

O LAR NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO NÃO FICAVA EM SILÊNCIO NEM QUANDO AS CÂMERAS PARAVAM
As gravações envolvendo crianças eram uma das partes mais alegres — e mais barulhentas — da produção. Quando o diretor anunciava uma pausa, o cenário do Lar imediatamente se transformava. José Wilton, Simone, Tatu, Alessandra e os demais pequenos intérpretes corriam pelos corredores, inventavam brincadeiras e, muitas vezes, continuavam discutindo de brincadeira mesmo depois de encerrada a cena.

A rivalidade entre José Wilton e Simone, aliás, era completamente diferente fora das câmeras. Lucas Barbosa e Fabíola Alcantra se tornaram grandes amigos. Isso divertia a equipe, porque minutos antes podiam estar brigando como dois inimigos mortais e, assim que alguém gritava “corta!”, estavam sentados juntos dividindo um lanche. A direção chegou a brincar:
“A maior dificuldade é convencer essas duas crianças a brigarem… até começar a gravar.”

PACOTE QUASE RECEBEU OUTRO NOME
A chegada de Pacote, encontrado dentro de uma caixa no Lar Nossa Senhora da Conceição, sempre foi pensada para surpreender o público. Mas o nome do personagem demorou a ser definido. Nos primeiros roteiros, a criança era identificada apenas como “Menino da Caixa”. Nos bastidores, a equipe passou a chamá-lo de Pacote como uma brincadeira. O apelido pegou. Quando Pietro Lima começou os ensaios, alguém perguntou como o personagem seria chamado definitivamente. A resposta teria sido:
“Pacote.”
E ninguém mais pensou em mudar.
Anos depois, essa passou a ser uma das curiosidades mais conhecidas da novela.

OS GATOS DE DONA DODÔ TINHAM VONTADE PRÓPRIA
Trabalhar com animais nunca foi uma tarefa simples. Mas os gatos de Dona Dodô pareciam ter desenvolvido um prazer especial em contrariar a equipe. Em uma cena, um deles deveria permanecer tranquilamente no colo da personagem.
Foram feitos vários ensaios.
Tudo funcionou.
Câmera pronta.
Iluminação pronta.
Silêncio no estúdio.
Claquete.
Ação.
Dona Dodô começou a falar…
E o gato simplesmente saltou.
Eloá Braga olhou para o animal e, sem sair da personagem, disparou:
“Pois vá! Nesta casa ninguém respeita mais ninguém!”
A equipe caiu na gargalhada. A cena precisou ser interrompida. Mas a frase ficou tão boa que acabou sendo incorporada ao diálogo numa tomada posterior.

UMA CENA DE DILMA PRECISOU SER GRAVADA VÁRIAS VEZES POR UM MOTIVO INESPERADO
Dilma era uma personagem de grande presença. Suas entradas em cena precisavam ser surpreendentes, gerando expectativas, dinamismo e humor em muitos casos. Numa sequência importante na mansão Vittorelli, a personagem deveria descer a grande escadaria, atravessar o salão e interromper uma conversa.
Tudo parecia perfeito.
Na primeira tomada, porém, um dos sapatos fez um barulho estranho no degrau.
Na segunda, alguém deixou cair um objeto fora do enquadramento.
Na terceira, uma porta não abriu no momento previsto.
Na quarta, finalmente, tudo funcionou.
Dilma surgiu no alto da escada.
Começou a descer.
Silêncio absoluto.
Até que, do outro lado do cenário, alguém espirrou.
Sônia Vieira parou, olhou na direção do barulho e perguntou:
“Querem que eu volte para o começo ou posso continuar minha carreira?”
Dessa vez, até o diretor começou a rir.

A NEBLINA DE TERESÓPOLIS AJUDOU A NOVELA
Algumas gravações externas foram planejadas para aproveitar a paisagem da região serrana. Em mais de uma ocasião, porém, a equipe encontrou um elemento inesperado: a neblina. Em vez de prejudicar o resultado, ela criou uma atmosfera tão bonita que a direção passou a aproveitar determinados dias para gravar cenas mais introspectivas.
Uma das sequências de Ana caminhando sozinha ganhou uma dimensão diferente justamente porque, naquele dia, a paisagem praticamente desaparecia atrás dela.
A direção decidiu não esperar o tempo abrir.
Gravou.
E o resultado agradou tanto que a sequência entrou praticamente sem alterações.

VÂNIA E GUILHERME PRECISARAM APRENDER A NÃO OLHAR PARA A CÂMERA
Pode parecer estranho hoje, mas, em cenas externas especialmente movimentadas, nem sempre era fácil manter a concentração. Em uma das primeiras gravações do casal Vânia e Guilherme, crianças e curiosos acabaram se reunindo para acompanhar o trabalho da televisão. A orientação era simples: não olhar para ninguém.
Na primeira tomada, Silvia Gretz olhou discretamente.
Na segunda, Gueison Batista percebeu alguém acenando e quase sorriu.
Na terceira, uma criança gritou o nome do ator.
Corta.
A direção esperou alguns minutos.
Na quarta tentativa, finalmente, a cena foi concluída.
Quando terminou, alguém da equipe brincou:
“Parabéns. Vocês acabam de se apaixonar na frente de metade de Teresópolis.”

O BAR DE TEOBALDO ERA O LUGAR PREFERIDO PARA ESTUDAR ROTEIRO
Durante os intervalos, o cenário do bar continuava sendo um dos pontos mais frequentados pelos atores. Era comum encontrar intérpretes sentados às mesas estudando diálogos enquanto técnicos ajustavam iluminação ou preparavam a cena seguinte. Genival Lima, intérprete de Teobaldo, tinha o hábito de permanecer atrás do balcão mesmo quando não estava gravando. Com o tempo, a equipe começou a brincar que ele já poderia assumir o estabelecimento de verdade. O ator respondia:
“Só se não me fizerem lavar os copos.”

TEOBALDO QUASE SE DECLAROU ANTES DA HORA
Uma das cenas previa apenas que Teobaldo observasse Dona Dodô atravessando a rua.Nada mais. Durante o ensaio, Genival Lima improvisou uma pequena fala, quase inaudível:
“Se ela soubesse…”
A direção gostou.
A frase, porém, não poderia entrar naquele momento. Revelaria demais sobre os sentimentos do personagem. Ela foi retirada. Mas a ideia de Teobaldo falar sozinho, em alguns momentos, acabou sendo aproveitada posteriormente. Assim nasceram pequenos instantes em que o personagem parecia conversar consigo mesmo sobre sua paixão impossível.

O PERSONAGEM QUE CRESCEU SEM QUE NINGUÉM PLANEJASSE
Teobaldo estava presente desde o início da novela, mas sua participação foi ganhando novas possibilidades durante o desenvolvimento da história. A receptividade às cenas no bar, sua amizade com Miro e Edgar, a paixão silenciosa por Dona Dodô e, principalmente, a relação de ternura criada com Dona Paulina fizeram o personagem crescer. Não porque a novela abandonasse seu planejamento original. Mas porque os elementos começaram a se encaixar. A equipe percebeu que Teobaldo era um personagem capaz de circular entre vários núcleos.
Ele podia provocar humor.
Ouvir confidências.
Falar de cinema.
Apaixonar-se em silêncio.
E ainda emocionar.
Pouco a pouco, o dono do bar passou a ter uma presença cada vez mais marcante em Barra do Imbuí.

DONA DODÔ NÃO ENTENDIA A TORCIDA DO PÚBLICO
Durante a novela, as cartas começaram a chegar com uma pergunta insistente:
“Quando Dona Dodô vai perceber que Teobaldo está apaixonado?”
A própria Eloá Braga teria se divertido ao descobrir que o público torcia pelo casal. Segundo a brincadeira atribuída à atriz:
“Eu acho que Dona Dodô vai perceber quando ele casar com outra.”
A frase virou uma das histórias favoritas relacionadas à dupla.

DONA PAULINA INVENTAVA DOENÇAS FORA DO ROTEIRO
A hipocondria de Dona Paulina oferecia enorme espaço para humor. Em alguns ensaios, Lauren Bitancurt começou a acrescentar pequenas queixas antes mesmo de suas falas.
“Estou sentindo uma pressão.”
— “Isso é uma tontura?”
— “Alguém sabe se febre pode começar no cotovelo?”
Muitas dessas frases não foram para o ar. Mas algumas inspiraram diálogos escritos posteriormente. A equipe passou a deixar uma cadeira por perto sempre que a atriz começava uma cena mais longa. A brincadeira era:
“Nunca se sabe quando Dona Paulina vai precisar de atendimento.”

UMA CENA ENTRE TINA E ALUÍSIO FEZ O ESTÚDIO FICAR EM SILÊNCIO
O núcleo infantil era responsável por muitos momentos engraçados. Mas também produziu algumas das cenas mais delicadas.
Em determinada sequência, Tina e Aluísio conversavam sobre a ausência das mães em suas vidas — cada um à sua maneira.
Ela falava sobre a irmã que jamais conheceu e cuja ausência permanecia viva dentro da família.
Ele revelava, com a inocência de uma criança, o quanto sentia falta da mãe.
Ao final da gravação, ninguém gritou imediatamente.
Houve alguns segundos de silêncio.
Depois vieram os aplausos.
Foi uma das poucas vezes em que uma cena infantil teria sido aplaudida espontaneamente pela equipe técnica.

UMA TOMADA FOI SALVA POR UM ESQUECIMENTO
Em uma sequência entre Miro (Américo Macedo) e Edgar (Manolo Figueira), Manolo esqueceu uma pequena parte do diálogo. Em vez de interromper, o outro continuou falando e transformou a pausa numa reação do personagem. O colega rapidamente acompanhou. A conversa tomou um caminho ligeiramente diferente, mas chegou exatamente ao ponto previsto pelo roteiro. Quando o diretor gritou “corta”, esperou alguns segundos e perguntou:
— “Vocês erraram?”
Os dois se entreolharam.
“Não.”
A tomada foi aproveitada.

A CÂMERA TAMBÉM PRECISAVA DANÇAR
Uma cena de festa em Barra do Imbuí exigia grande movimentação. Havia personagens conversando, crianças correndo, moradores passando e música tocando. O diretor queria que o público tivesse a sensação de estar dentro da festa. O problema era que havia pouca área disponível para a movimentação. A solução foi ensaiar cuidadosamente os caminhos dos atores e da câmera. Qualquer passo errado poderia resultar numa colisão. E quase aconteceu. Em uma tomada, um figurante deu meio passo fora da marca. O operador desviou. A câmera passou por centímetros. A sequência continuou. O diretor adorou o resultado porque o pequeno desvio deu ainda mais espontaneidade à cena. Ela foi aproveitada.

ARLETE ERA A ÚNICA QUE SABIA EXATAMENTE ONDE ESTAVA CADA ACESSÓRIO
Enquanto alguns atores precisavam perguntar à equipe onde estavam seus objetos de cena, Nora Bengui, intérprete de Arlete, conhecia tudo.
Brincos.
Bolsa.
Lenço.
Luvas.
Documentos.
Perfume.
Em determinado dia, uma assistente perguntou onde havia deixado um acessório. A atriz respondeu imediatamente:— “Terceira gaveta, lado esquerdo, atrás da caixa azul.”
Estava lá. A equipe ficou impressionada. A partir daquele momento, quando algo desaparecia no camarim, alguém dizia: “Pergunta a Arlete.”

O ROTEIRO DO ELENCO INFANTIL VIVIA RABISCADO
Enquanto os adultos mantinham os roteiros cheios de marcações e observações, os exemplares usados pelas crianças frequentemente apareciam com desenhos nas margens.
Casas.
Corações.
Animais.
Caricaturas.
E, certa vez, um desenho que a equipe identificou como Dona Dodô. A interpretação não era das mais generosas. Quando perguntaram quem havia feito, ninguém assumiu. Eloá Braga viu o desenho e decretou:
“É muito parecido com uma pessoa que eu conheço.”

O ÚLTIMO DIA NO LAR FOI MAIS EMOCIONANTE DO QUE O PREVISTO
Quando chegou o momento de desmontar o cenário do Lar Nossa Senhora da Conceição, os atores mirins foram convidados a visitar o espaço uma última vez. Alguns haviam passado meses gravando ali. Para eles, aquele lugar cenográfico havia se transformado numa segunda casa. A despedida começou descontraída.
Fotos.
Brincadeiras.
Abraços.
Até que alguém perguntou:
— “Quem vai sentir saudade?”
Todos levantaram a mão.
Foi então que o clima mudou.
E vários começaram a chorar.
Dona Dodô, naturalmente, tentou aliviar:
“Parem com isso, meus filhos. Senão eu começo também e estrago toda a minha maquiagem.”
Não adiantou. Ela começou a chorar também.

A ÚLTIMA CENA NÃO FOI A ÚLTIMA GRAVADA
Como acontece em grandes produções, a ordem das gravações não correspondia necessariamente à ordem em que o público acompanharia a história. Por questões de agenda e organização, algumas cenas finais foram realizadas antes de outras sequências intermediárias. Isso criou uma situação curiosa. O elenco já havia se despedido emocionalmente em determinadas cenas… E, dias depois, estava novamente no estúdio gravando acontecimentos que, para os personagens, tinham ocorrido meses antes. A equipe passou a brincar:
“Nesta novela, até a saudade precisa obedecer ao cronograma.”

A FOTO QUE NINGUÉM QUERIA TIRAR
No último dia oficial de gravações, a produção organizou uma fotografia com o elenco e parte da equipe. A ideia era simples. Todos juntos. Um registro histórico. O problema foi organizar tantas pessoas.
Crianças.
Atores.
Técnicos.
Direção.
Produção.
Gente entrando e saindo do enquadramento. Alguém escondido atrás de outro. Foram necessárias várias tentativas. Em uma delas, Pacote resolveu fazer careta. Na outra, Dona Paulina estava olhando para o lado. Em outra, Teobaldo apareceu segurando um objeto que não deveria estar na fotografia. A imagem escolhida para os arquivos da Rede Contato acabou não sendo a mais perfeita tecnicamente. Mas era a mais verdadeira.
Alguns sorriam.
Outros riam.
Havia gente emocionada.
E alguém, ao fundo, ainda parecia não saber onde deveria ficar.
Era a imagem perfeita de uma equipe que havia vivido intensamente aqueles meses juntos.

E O QUE MAIS SE REPETIA NOS BASTIDORES?
Anos depois, quando integrantes da equipe eram perguntados sobre De Bem com a Vida, uma palavra aparecia constantemente:
FAMÍLIA.
Não porque todos concordassem o tempo inteiro.
Não porque nunca houvesse cansaço, atrasos ou problemas.
Mas porque a novela havia criado uma convivência muito particular.
As crianças cresciam juntas durante as gravações.
Os atores mais experientes acolhiam os mais jovens.
As equipes viajavam para locações.
Dividiam refeições.
Esperavam a chuva passar.
Repetiam cenas.
Riam de erros.
Choravam nas despedidas.
E, pouco a pouco, construíam também uma história que nunca apareceria completamente na tela.
Uma história feita de bastidores.
De amizades.
De improvisos.
De doces desaparecidos.
De gatos indisciplinados.
De uma escadaria que anunciava problemas.
De um homem apaixonado demais para falar.
De uma mulher incapaz de perceber.
De crianças que brigavam diante das câmeras e brincavam assim que ouviam “corta”.
E de uma novela que, para todos aqueles que ajudaram a construí-la, jamais seria apenas mais um trabalho.
Porque, por trás das câmeras, De Bem com a Vida também encontrou uma forma de permanecer… de bem com a vida.

Lançada em setembro de 1983, pela gravadora SOUND CONTATODe Bem com a Vida chegou acompanhada de uma trilha sonora…