A história por trás de uma das novelas mais queridas da Rede Contato
Em 1983, quando De Bem com a Vida estreou no horário das seis da Rede Contato, poucos poderiam imaginar que aquela história ambientada entre as paisagens serranas de Teresópolis, o cotidiano de Barra do Imbuí e os segredos da tradicional família Vittorelli conquistaria o público de maneira tão intensa.
A novela reunia romance, humor, mistério, conflitos familiares e uma das características mais marcantes das grandes histórias exibidas no fim da tarde: a esperança.
Havia sofrimento, naturalmente. Ana carregava as marcas de uma vida inteira sem conhecer plenamente suas origens. Simone trazia consigo uma história dolorosa e acreditava que um dia reencontraria os pais. Tina crescia convivendo com o vazio deixado pelo desaparecimento de uma irmã que jamais conheceu. Alfredo escondia, sob a figura de um homem aparentemente derrotado pela vida, segredos capazes de mudar destinos.
Mas havia também amor.
O amor de Marcos e Ana. O amor impossível e silencioso de Teobaldo por Dona Dodô. O afeto de Dona Paulina por aquele homem solitário do bar. A amizade improvável entre as crianças. Os laços criados no Lar Nossa Senhora da Conceição. E, acima de tudo, a ideia de que ninguém está condenado a permanecer sozinho para sempre.
Era justamente esse equilíbrio entre emoção e leveza que faria de De Bem com a Vida uma novela tão especial.
TERESÓPOLIS: A CIDADE ESCOLHIDA PARA CONTAR
UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA
Desde os primeiros estudos da produção, havia uma certeza: a novela precisava de uma paisagem que ajudasse a contar sua história.
Não bastava uma cidade bonita.
Era preciso encontrar um lugar que transmitisse a atmosfera desejada pelo autor e pela direção: manhãs de neblina, ruas tranquilas, montanhas, jardins, casas antigas e a sensação de que, mesmo numa comunidade aparentemente pacata, cada porta escondia uma história.
Teresópolis oferecia tudo isso.
As paisagens da região serrana ajudavam a construir a identidade de De Bem com a Vida. Em muitas cenas externas, a neblina não precisou ser criada artificialmente. A equipe chegava para gravar e encontrava a paisagem envolta numa atmosfera que parecia saída diretamente do roteiro.
Em Barra do Imbuí, a produção encontrou o complemento perfeito para esse universo.
Enquanto a mansão dos Vittorelli representava riqueza, tradição e poder, Barra do Imbuí era o coração popular da novela. Era ali que as pessoas se encontravam, comentavam os acontecimentos e acompanhavam, muitas vezes sem perceber, os segredos que movimentavam a vida de todos.
A RUA QUE VIROU PERSONAGEM
Uma das decisões mais acertadas da produção foi construir, na cidade cenográfica da Rede Contato, uma rua especialmente pensada para reunir parte importante dos núcleos de Barra do Imbuí.
De um lado estavam as casas de moradores que acompanhavam o cotidiano da comunidade. Em outro ponto, encontrava-se a residência para onde Dona Dodô se mudava ao assumir a direção do Lar Nossa Senhora da Conceição.
Quase em frente ficava o ponto mais movimentado do cenário: o famoso Bar de Teobaldo.
A proximidade entre os dois locais acabaria se tornando fundamental para uma das histórias mais divertidas da novela.
Teobaldo podia estar ocupado atrás do balcão, servindo seus clientes, conversando sobre cinema ou ouvindo mais uma das histórias de Edgar e Miro. Bastava, porém, Dona Dodô aparecer do outro lado da rua para que sua atenção se perdesse completamente.
Nos bastidores, a equipe costumava brincar que o Bar de Teobaldo tinha duas vistas privilegiadas: uma para a rua e outra exclusivamente para Dona Dodô.
A relação entre os personagens ganhou tanta simpatia durante as gravações que várias pequenas reações de Teobaldo passaram a ser exploradas pela direção. Olhares discretos, silêncios constrangidos e tentativas frustradas de puxar assunto ajudavam a construir a paixão platônica do personagem.
Dona Dodô, naturalmente, não percebia absolutamente nada.
Ou, como brincava parte da equipe:
“Teobaldo podia pendurar uma faixa dizendo ‘Eu estou apaixonado por você’, e Dona Dodô perguntaria quem colocou aquilo na frente da janela.”
O BAR DE TEOBALDO: O CENÁRIO MAIS FREQUENTADO DA NOVELA
O bar rapidamente se tornou um dos cenários favoritos do público.
Era ali que Miro e Edgar davam continuidade às suas conversas, para desespero de Cora. Era também onde Teobaldo recebia os mais diferentes moradores de Barra do Imbuí.
Intelectual e boêmio, Edgar encontrava no bar um refúgio para suas conversas intermináveis. Miro era seu grande companheiro nessas jornadas, e a dupla acabou ganhando momentos de humor involuntário, especialmente quando Cora surgia para lembrar ao marido que ele tinha uma casa para onde voltar.
A decoração do bar também ajudava a revelar a personalidade de Teobaldo.
Apaixonado por cinema e pelas grandes atrizes de Hollywood — sim, amor, Hollywoodianas mesmo! — ele colecionava revistas, fotografias e recordações ligadas ao universo cinematográfico.
Para Teobaldo, uma conversa podia começar com futebol, passar por uma fofoca da cidade e terminar numa longa discussão sobre uma estrela do cinema dos anos 1940.
E havia ainda Dona Paulina.
A princípio, a relação entre os dois parecia improvável. Aos poucos, porém, Dona Paulina desenvolvia por Teobaldo uma espécie de ternura maternal. Ela o repreendia, dava conselhos que ele não havia pedido e demonstrava uma preocupação que o deixava entre divertido e emocionado.
Nos bastidores, a equipe dizia que Teobaldo havia conseguido o que nunca imaginou:
Uma paixão platônica de um lado e uma mãe postiça do outro.
VITTORELLI: A FÁBRICA QUE PERFUMAVA AS GRAVAÇÕES
Poucos cenários exigiram tanta organização quanto a fábrica de doces e massas Vittorelli.
As cenas externas e parte das sequências industriais foram realizadas numa fábrica real, adaptada temporariamente pela produção para receber a identidade visual da tradicional empresa da novela. Placas, embalagens e elementos cenográficos transformavam o espaço, permitindo que a ficção se misturasse à rotina industrial.
As gravações eram planejadas para interferir o mínimo possível no funcionamento do local.
Em algumas sequências, funcionários reais continuavam trabalhando enquanto a equipe posicionava câmeras e iluminação em áreas previamente liberadas. Em outras, figurantes contratados assumiam posições específicas para garantir continuidade e movimentação em cena.
A escolha acabou dando à fábrica uma autenticidade difícil de reproduzir em estúdio.
E havia uma vantagem adicional: muitos dos doces e salgados usados nas cenas eram de verdade.
Isso provocou um problema que ninguém havia previsto.
Era preciso controlar os produtos disponíveis no set.
Não por causa da continuidade.
Mas por causa de Dona Dodô.
A personagem era apaixonada pelas delícias da Vittorelli, e a equipe descobriu rapidamente que deixar uma mesa cheia de doces ao alcance de Eloá Braga durante longas horas de gravação podia alterar perigosamente a quantidade de alimentos disponíveis para a cena seguinte.
A atriz brincava que não era ela quem estava comendo:
“É a Dona Dodô. Eu só estou fazendo uma interpretação muito comprometida.”
A IMPONENTE MANSÃO DOS VITTORELLI
Para representar o poder da família Vittorelli, a produção procurou uma residência capaz de causar impacto logo em sua primeira aparição.
A fachada e os jardins pertenciam a uma grande propriedade utilizada para as gravações externas. Já os interiores da mansão foram inteiramente recriados nos estúdios da Rede Contato, permitindo maior liberdade para iluminação, movimentação das câmeras e grandes cenas dramáticas.
A mansão precisava transmitir muito mais que riqueza.
Ela era o centro de uma família construída sobre segredos, perdas, culpas e relações interrompidas pelo passado.
O grande salão tornou-se cenário de encontros e confrontos familiares. O escritório de Ludovico concentrava algumas das cenas mais tensas da trama. E a escadaria central acabou adquirindo fama entre a equipe.
Era quase impossível Dilma descer aquela escada sem que alguma coisa importante estivesse prestes a acontecer.
A direção percebeu isso e passou a utilizar o espaço como uma espécie de sinal dramático.
Se Dilma surgisse no alto da escadaria, o público já podia se preparar.
Alguma bomba estava prestes a explodir.
A MODA DE 1983 E OS FIGURINOS QUE CONQUISTARAM O PÚBLICO
A equipe de figurino buscou recriar a moda brasileira de 1983 sem transformar os personagens em caricaturas.
Cada núcleo possuía uma identidade própria.
Na mansão Vittorelli, roupas mais elaboradas refletiam o poder econômico e a posição social da família. Em Barra do Imbuí, predominavam figurinos mais simples e cotidianos. No Lar Nossa Senhora da Conceição, as roupas das crianças ajudavam a transmitir suas diferentes personalidades.
Três mulheres, porém, se transformaram nas campeãs das cartas enviadas à Rede Contato: Ana, Arlete Vergueiro e Dilma.
ANA (Valéria Linhares)
O figurino de Ana acompanhava sua própria trajetória.
No início, predominavam roupas delicadas e simples. Aos poucos, à medida que a personagem amadurecia e enfrentava novas descobertas, sua aparência também se transformava.
A equipe evitou, porém, fazer dessa mudança uma simples ascensão social.
Ana não precisava deixar de ser quem era para tornar-se mais forte.
Suas roupas passaram a expressar uma mulher que começava a reconhecer seu próprio valor.
ARLETE VERGUEIRO (Nora Bengui)
Para Arlete, elegância era quase uma forma de defesa.
Sempre impecável, a personagem usava sua aparência como parte da imagem de controle que desejava transmitir ao mundo.Nada parecia estar fora do lugar.
E justamente por isso, quando Arlete perdia o controle, o contraste era ainda mais poderoso.
Muitas telespectadoras escreviam perguntando sobre seus vestidos, acessórios e penteados. Algumas revistas especializadas chegaram a reproduzir modelos inspirados no visual da personagem.
DILMA (Sônia Vieira)
Dilma permitia à equipe de figurino trabalhar com uma personalidade mais expansiva.
Suas roupas tinham mais cor e expressavam sua força e espontaneidade.
Era uma personagem que podia entrar numa cena e, antes mesmo de dizer qualquer coisa, já anunciar sua presença.
MILHARES DE CARTAS E UMA NOVELA SEM REDES SOCIAIS
Em 1983, o termômetro da popularidade de uma novela não estava nas redes sociais.
Estava nas ruas, nas conversas, nas bancas de revista e, principalmente, nas cartas.
A Rede Contato passou a receber uma grande quantidade de correspondências relacionadas a De Bem com a Vida.
Algumas eram endereçadas aos personagens.
Outras, diretamente aos atores.
Havia pedidos de fotografias, declarações de amor e, naturalmente, mensagens de telespectadores tentando interferir no rumo da história.
“Não deixe Ana sofrer mais!”
“Marcos precisa descobrir a verdade!”
“Teobaldo tem que dizer logo que ama Dona Dodô!”
Esta última se tornou especialmente frequente quando o público começou a perceber o que Dona Dodô ainda não havia percebido.
Entre os homens do elenco, Haroldo Jarede, Gueison Batista e Flávio Meirelles estavam entre os campeões de correspondências recebidas pela emissora.
O caso de Flávio era especialmente curioso. Interpretando Onofre, ele deveria provocar rejeição. Mas provocava também fascínio. Parte do público simplesmente adorava odiá-lo.
A PROTAGONISTA QUE VEIO DE UMA VILÃ
Antes da definição final do elenco, Lília Bondi chegou a ser cotada para viver Ana. O papel, no entanto, acabou ficando com Valéria Linhares, que vinha de uma atuação marcante como vilã numa novela das sete.
A escolha surpreendeu. Para parte do público, Valéria ainda estava muito associada à personagem anterior. A própria imprensa questionou se a atriz conseguiria convencer como protagonista romântica de uma novela das seis. A resposta veio rapidamente. Valéria construiu Ana sem transformá-la numa mocinha excessivamente frágil. Ela sofria. Chorava. Sentia medo. Mas havia dentro dela uma força que se revelava justamente nos momentos em que tudo parecia perdido.
A escalação acabou sendo considerada uma das grandes apostas acertadas da novela.
JOSÉ PEDRO CIPRIANI DESAPARECEU DENTRO DE ALFREDO
Um dos maiores elogios recebidos pelo elenco foi direcionado a José Pedro Cipriani.
Conhecido até então por personagens ligados à alta sociedade, o ator surpreendeu público e crítica com a caracterização do misterioso e sofrido Alfredo. O desempenho lhe rendeu elogios e reconhecimento, justamente pelo contraste com os papéis que havia interpretado anteriormente.
Para viver Alfredo, Cipriani trabalhou não apenas a aparência, mas a postura, o olhar e a maneira de falar. A intenção era evitar uma interpretação caricata. Alfredo não deveria ser definido apenas por sua condição de vida. Por trás daquele homem havia um passado. Uma dor. Uma identidade. E segredos que, pouco a pouco, começavam a surgir.
Uma das críticas mais comentadas da época resumiu a transformação do ator numa frase:
“José Pedro Cipriani não interpreta Alfredo. Ele desaparece dentro dele.”
ARMANDO BOTELHO E O MÉDICO QUE CONQUISTOU O PÚBLICO
Já consagrado como um dos nomes versáteis da dramaturgia da Rede Contato, Armando Botelho assumiu o papel do dedicado Dr. Pedro, pai de Aluísio.
O personagem poderia facilmente ter sido apenas o médico correto e respeitado da cidade.
Mas a relação com o filho ganhou uma dimensão muito mais profunda. Dr. Pedro proporcionava a Aluísio tudo o que o dinheiro podia oferecer. O menino crescia em berço de ouro, cercado de conforto e inteligência, mas carregava uma ausência que nenhuma riqueza conseguia preencher: a morte prematura da mãe.
As cenas entre pai e filho se tornaram algumas das mais delicadas da novela. Nos bastidores, dizia-se que a direção precisava evitar ensaiar excessivamente algumas sequências, porque a espontaneidade entre os dois intérpretes funcionava melhor quando havia espaço para pequenas reações inesperadas.
AS CRIANÇAS DO LAR NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO
O Lar Nossa Senhora da Conceição tornou-se um dos grandes corações da novela. Ali, De Bem com a Vida falava sobre abandono e solidão, mas também sobre amizade, coragem e pertencimento. E, claro, sobre confusão.
José Wilton acreditava ser o dono do território. Até a chegada de Simone. A garota não estava disposta a obedecer suas regras e se transformava rapidamente em sua principal rival. As discussões entre os dois deixavam Bernadete e Dona Dodô desesperadas.
Nos bastidores, Lucas Barbosa e Fabíola Alcantra desenvolveram uma facilidade tão grande para as cenas de confronto que algumas tomadas precisavam ser interrompidas porque os demais atores começavam a rir. Tatu, naturalmente, costumava estar por perto. Se José Wilton elaborava um plano, havia uma grande possibilidade de Tatu participar. Especialmente quando o objetivo envolvia os doces de Dona Dodô. Alessandra representava o lado mais meigo daquele universo e se tornava uma importante amiga para Simone. Pacote, por sua vez, fazia uma das entradas mais inesperadas da novela: surgindo dentro de uma caixa no Lar Nossa Senhora da Conceição. A cena foi mantida em absoluto segredo. Durante a divulgação, a Rede Contato limitou-se a anunciar: “Uma surpresa está chegando ao Lar.” Quando a caixa se abriu e o menino apareceu, o público descobriu por que ele acabaria sendo chamado de Pacote.
UMA AMIZADE IMPROVÁVEL
Outro núcleo infantil que conquistou o público foi formado por Tina e Aluísio. Ela, criada numa família humilde e cercada de amor, mas marcada pela história da irmã desaparecida. Ele, filho único de um médico, cercado de conforto, mas profundamente solitário. A amizade entre os dois nascia de maneira inesperada e mostrava uma das mensagens mais bonitas da novela: pessoas podem ter vidas completamente diferentes e, ainda assim, reconhecer no outro a mesma necessidade de afeto. Aluísio, com sua inteligência e necessidade constante de falar sobre tudo, encontrava em Tina alguém capaz de enxergar além da aparência do menino rico e cheio de respostas. Tina encontrava nele um amigo que realmente a escutava. A dupla tornou-se uma das grandes surpresas da história.
A GRANDE POLÊMICA DO AIR SUPPLY
E então chegamos a um dos bastidores mais comentados de De Bem com a Vida.
“Making Love Out Of Nothing At All”, do Air Supply, tornou-se o tema romântico internacional de Guilherme e Vânia. A música acabou associada diretamente ao casal, numa das escolhas mais marcantes da trilha sonora.
Segundo uma das histórias mais curiosas ligadas à produção, houve uma disputa pelos direitos da canção. O documento registra que a Globo teria tentado incluí-la na trilha internacional de Champagne, mas os direitos já haviam sido cedidos à Rede Contato.
A consequência teria sido uma das polêmicas musicais mais divertidas daquele ano. A concorrente acabou utilizando uma versão cover interpretada por uma desconhecida banda chamada Flash Air, numa evidente e curiosa aproximação de nome com o próprio Air Supply.
O público estranhou.
As revistas comentaram.
E a música de Guilherme e Vânia ganhou ainda mais repercussão.
Na prática, a disputa acabou ajudando a consolidar a associação entre “Making Love Out Of Nothing At All” e o casal de De Bem com a Vida.
A SURPRESA DA AUDIÊNCIA
O documento registra que o tema dos órfãos e a atmosfera típica de uma novela das seis despertaram o interesse do público e da crítica, enquanto De Bem com a Vida se destacou fortemente na disputa pela audiência.
Eu gosto especialmente de imaginar que esse sucesso não aconteceu de um dia para o outro.
A novela estreou bem. Mas foi crescendo. O público começou a comentar os personagens. Depois vieram as histórias do Lar.
A chegada de Simone.
Os conflitos de Ana.
Os segredos da família Vittorelli.
A paixão silenciosa de Teobaldo.
E, quando a trama já estava consolidada, De Bem com a Vida se tornou um verdadeiro fenômeno.
A Rede Contato passou a perceber que possuía algo raro:
uma novela que agradava públicos diferentes ao mesmo tempo.
As crianças tinham seus personagens favoritos.
Os adultos acompanhavam os romances e segredos.
O público mais velho se identificava com personagens como Dona Paulina, Edgar, Cora, Miro, Teobaldo e Dona Dodô.
Era uma novela para ser comentada depois do jantar.
Uma novela que deixava saudade antes mesmo de terminar.
OS IMPROVISOS DE DONA DODÔ
Eloá Braga era conhecida por sua precisão cômica. Mas algumas das cenas mais engraçadas de Dona Dodô nasceram de pequenas reações inesperadas.
Uma das histórias preferidas da equipe envolvia uma sequência em que Tatu e José Wilton deveriam ser repreendidos por mais uma armação. Ao perceber que seus doces haviam desaparecido, Dona Dodô começaria um longo sermão.
Durante uma das tomadas, Eloá abriu uma lata cenográfica, olhou para o fundo e simplesmente perguntou:
“Mas vocês não deixaram nem a vergonha?”
A reação dos atores foi imediata.
Ninguém conseguiu continuar a cena.
A frase provocou tantas risadas que a direção decidiu aproveitá-la numa nova tomada.
E acabou entrando no capítulo.
TEOBALDO E DONA DODÔ: UM CASAL QUE O PÚBLICO ADOTOU
Curiosamente, Teobaldo e Dona Dodô não foram concebidos inicialmente como um dos grandes pares românticos da novela. A paixão dele era apenas um detalhe da personalidade do personagem. Mas o público percebeu. E começou a torcer. A cada carta perguntando quando Teobaldo finalmente se declararia, a produção percebia que aquela história havia crescido. A grande graça, porém, era justamente Dona Dodô não perceber nada. Por isso, a equipe decidiu não apressar a situação. Teobaldo continuaria vivendo sua paixão em silêncio.
O espectador saberia.
A cidade, provavelmente, saberia.
Os frequentadores do bar saberiam.
Os gatos de Dona Dodô talvez soubessem.
Menos Dona Dodô.
OS GATOS DE DONA DODÔ
Os gatos da personagem também se transformaram numa curiosidade de bastidor.
Dona Dodô os tratava como filhos, e a produção precisou se adaptar ao temperamento de seus verdadeiros intérpretes.
Havia dias em que o gato fazia exatamente o que deveria.
E havia dias em que simplesmente decidia que não faria absolutamente nada.
Numa sequência, Dona Dodô deveria entrar falando com um dos animais no colo. O gato saltou antes da hora. Eloá Braga, sem perder o personagem, continuou:
“Até você resolveu fugir dos problemas desta casa!”
A direção adorou.
A tomada foi aproveitada.
PRÊMIOS, INDICAÇÕES E RECONHECIMENTO
O sucesso da novela também se refletiu na temporada de premiações.
A ideia de reunir prêmios e indicações já estava prevista no material inicial dos bastidores.
Entre os principais reconhecimentos, De Bem com a Vida teria recebido destaque em categorias como:
Melhor Novela
Melhor Atriz, com Valéria Linhares por Ana
Melhor Ator, ou uma das principais premiações de interpretação, para José Pedro Cipriani por Alfredo
Melhor Revelação Infantil, reconhecendo o destaque do núcleo infantil
Melhor Direção de Arte, pela atmosfera criada entre Teresópolis, Barra do Imbuí, a mansão Vittorelli e o Lar Nossa Senhora da Conceição
Melhor Trilha Sonora
Mas nem tudo foram vitórias.
E isso também ajudava a alimentar as conversas.
Algumas derrotas em premiações provocaram indignação dos fãs, que escreveram para jornais e revistas defendendo seus artistas favoritos.
Afinal, o público de uma novela também quer ver seus personagens reconhecidos.
O LEGADO DE DE BEM COM A VIDA
Décadas depois, talvez seja justamente difícil definir De Bem com a Vida por apenas um elemento.
Ela não foi apenas uma história de amor.
Não foi apenas uma novela sobre órfãos.
Não foi apenas uma trama de mistérios familiares.
Ela foi a soma de tudo isso.
Foi Ana tentando encontrar seu lugar no mundo.
Foi Marcos aprendendo que amar também significa lutar.
Foi Ludovico e os fantasmas de seu passado.
Foi Arlete tentando controlar destinos.
Foi Simone chegando ao Lar carregando uma vida inteira de desconfiança.
Foi José Wilton descobrindo que seu reinado tinha acabado.
Foi Tatu atrás dos doces de Dona Dodô.
Foi Pacote chegando dentro de uma caixa.
Foi Tina carregando a ausência de uma irmã que jamais conheceu.
Foi Aluísio descobrindo que dinheiro não compra o que ele mais desejava.
Foi Teobaldo apaixonado em silêncio.
Foi Dona Dodô sem perceber.
Foi Dona Paulina transformando qualquer dor de cabeça numa emergência nacional.
Foi Edgar e Miro prolongando suas conversas no bar.
Foi Barra do Imbuí.
Foi Teresópolis.
Foi a Vittorelli.
Foi o Lar Nossa Senhora da Conceição.
Foi uma novela que falava sobre pessoas feridas pela vida, mas que ainda encontravam, de alguma maneira, uma razão para seguir em frente.
E talvez seja por isso que o título tenha feito tanto sentido.
Porque, no fim das contas, De Bem com a Vida nunca foi sobre personagens que tinham uma existência perfeita.
Foi sobre personagens que, apesar das perdas, dos erros, dos segredos e das dores, descobriam que a vida ainda podia reservar amor, amizade, reencontros, perdão e uma nova chance de felicidade.
Eram pessoas imperfeitas. Vidas complicadas. Histórias interrompidas. Mas, enquanto houvesse esperança, sempre seria possível recomeçar… e ficar, mais uma vez, de bem com a vida.
Durante os meses em que De Bem com a Vida esteve em produção, muita coisa aconteceu longe das câmeras…
